A pubarca precoce é o aparecimento de pelos pubianos antes dos 8 anos nas meninas e antes dos 9 anos nos meninos. Na maioria das crianças, a causa é a adrenarca precoce, um amadurecimento antecipado das glândulas adrenais que não costuma exigir tratamento. A avaliação com endocrinologista pediátrico é importante para descartar hiperplasia adrenal congênita não clássica, puberdade precoce verdadeira, exposição a hormônios e, raramente, tumores produtores de androgênios.
Encontrar pelos na região genital de uma criança de 5 ou 6 anos costuma assustar. A primeira pergunta dos pais quase sempre é se a filha ou o filho já está entrando na puberdade. Na maioria das vezes, a resposta é não, e entender por que ajuda a enfrentar a consulta com mais tranquilidade.
Os pelos pubianos dependem de hormônios chamados androgênios. Na criança, eles podem vir de duas fontes diferentes: das glândulas adrenais, que ficam sobre os rins, ou das gônadas, que entram em ação na puberdade verdadeira. Descobrir de onde vêm é o centro da investigação.
O que é pubarca precoce
A pubarca precoce é o surgimento de pelos pubianos antes dos 8 anos nas meninas e antes dos 9 anos nos meninos. Os pelos costumam ser poucos, mais escuros e grossos que a penugem do restante do corpo, e aparecem primeiro nos grandes lábios ou na base do pênis.
É preciso diferenciar esses pelos da penugem fina e clara, comum em muitas crianças e sem significado hormonal. Em algumas famílias, a pilosidade corporal é naturalmente mais abundante, o que também entra na avaliação.
Sinais que costumam acompanhar
Os pelos pubianos raramente aparecem sozinhos. Junto com eles podem surgir:
- odor axilar mais forte, parecido com o do adulto;
- pelos nas axilas;
- pele e cabelo mais oleosos;
- espinhas discretas no rosto;
- leve aceleração do crescimento.
A causa mais comum: o amadurecimento das adrenais
A adrenarca é o amadurecimento natural das glândulas adrenais, que passam a produzir mais androgênios fracos, como o DHEA-S. Em todas as crianças isso acontece em algum momento da infância, geralmente entre 6 e 8 anos, antes da puberdade. Na adrenarca precoce, esse processo é mais intenso ou mais cedo, a ponto de gerar sinais visíveis.
A adrenarca precoce é mais frequente em meninas e está associada a alguns fatores conhecidos:
- nascimento pequeno para a idade gestacional, sobretudo com ganho rápido de peso nos primeiros anos;
- excesso de peso na infância;
- resistência à insulina, às vezes visível como manchas escuras no pescoço, tema do texto sobre acantose nigricans.
Trata-se de uma condição benigna. Ainda assim, uma parte das meninas com adrenarca precoce acumula alterações metabólicas e tem maior chance de desenvolver síndrome dos ovários policísticos na adolescência, o que justifica o acompanhamento. O cuidado com o peso, descrito no artigo sobre obesidade infantil, faz parte desse seguimento.
Outras causas que precisam ser afastadas
A adrenarca é a explicação mais comum, mas não a única. A avaliação existe justamente para não deixar passar condições que exigem tratamento.
Hiperplasia adrenal congênita não clássica
A hiperplasia adrenal congênita é um grupo de alterações genéticas em enzimas das adrenais. A forma mais conhecida envolve a deficiência da enzima 21-hidroxilase. Na forma clássica, o diagnóstico costuma ocorrer logo no nascimento, inclusive pelo teste do pezinho. Na forma não clássica, mais leve, os sinais aparecem mais tarde, frequentemente como pelos pubianos antes da hora.
Em comparação com a adrenarca isolada, a forma não clássica tende a avançar mais a idade óssea e a acelerar mais o crescimento. O exame-chave é a dosagem de 17-hidroxiprogesterona, colhida no início da manhã. Quando o resultado fica numa faixa intermediária, o teste de estímulo com ACTH esclarece o diagnóstico. A área de hiperplasia adrenal congênita detalha essa condição.
Puberdade precoce verdadeira
Se os pelos aparecem acompanhados de broto mamário na menina ou de aumento dos testículos no menino, a situação muda. Nesse caso, a puberdade pode estar começando de fato, comandada pelo cérebro, e a investigação segue outro caminho. Os sinais de puberdade precoce são explicados em um texto próprio.
Tumores e exposição a hormônios
Tumores das adrenais, dos ovários ou dos testículos que produzem androgênios são raros, mas provocam sinais intensos e de evolução rápida. Outra causa pouco lembrada é o contato da criança com gel ou creme de testosterona usado por um adulto da casa, que passa pela pele durante o abraço ou pelo contato com toalhas e roupas.
Sinais de alerta na pubarca precoce
Alguns achados indicam excesso importante de androgênios e pedem avaliação sem demora:
- progressão rápida dos pelos em poucos meses;
- aumento do clitóris na menina;
- crescimento do pênis sem aumento dos testículos no menino;
- voz mais grossa e aumento da massa muscular;
- acne intensa;
- aceleração marcante da altura, com a criança subindo de percentil;
- surgimento dos sinais antes dos 4 ou 5 anos.
Pelos pubianos em bebês e crianças muito pequenas merecem atenção especial, porque a adrenarca fisiológica praticamente não ocorre nessa faixa etária.
Como a avaliação é feita
A consulta começa pela história: quando os pelos surgiram, a velocidade das mudanças, peso ao nascer, uso de medicamentos ou cremes na família e a idade em que os pais entraram na puberdade. O exame físico avalia o estágio de Tanner, a presença de mamas ou aumento testicular, o tamanho do clitóris ou do pênis e sinais de resistência à insulina.
Os exames mais usados são:
- Idade óssea, pela radiografia de mão e punho, explicada em detalhes no texto sobre idade óssea.
- DHEA-S, que se eleva na adrenarca e se torna muito alto em alguns tumores.
- Androstenediona e testosterona, para medir o grau de excesso de androgênios.
- 17-hidroxiprogesterona basal, para rastrear a hiperplasia adrenal congênita não clássica.
- Teste de estímulo com ACTH ou exames de imagem, apenas quando os resultados iniciais indicam.
Quando há suspeita de puberdade verdadeira associada, entram também LH, FSH, estradiol e ultrassom pélvico.
Tratamento e acompanhamento
Na adrenarca precoce isolada, não há medicamento indicado. A conduta é acompanhar o crescimento e a evolução dos sinais a cada 4 a 6 meses, orientar alimentação equilibrada, atividade física e sono adequado, e controlar o peso quando necessário.
Na hiperplasia adrenal congênita não clássica, o tratamento com glicocorticoide não é automático. Ele é considerado quando a idade óssea está muito avançada, o crescimento acelera de forma importante ou os sinais de androgênios progridem rápido. Quando indicado, a dose é individualizada e o seguimento é próximo.
O que esperar a longo prazo
Na adrenarca isolada, a puberdade verdadeira costuma começar na idade habitual ou um pouco antes, e a altura final tende a ficar dentro do esperado para a família. As meninas seguem em acompanhamento até a adolescência, com atenção a irregularidade menstrual, acne persistente, excesso de pelos e ganho de peso, sinais que podem indicar síndrome dos ovários policísticos.
Nos meninos, a pubarca precoce é menos frequente e, por isso, recebe um olhar mais cuidadoso. Neles, a proporção de causas como hiperplasia adrenal e exposição a hormônios é relativamente maior, e o exame do volume dos testículos é decisivo para orientar a investigação.
Em Brasília, a família costuma chegar à consulta encaminhada pelo pediatra depois de um exame de rotina. A área de puberdade precoce e atrasada reúne o cuidado dessas situações, com o objetivo de separar o que é apenas um amadurecimento antecipado das adrenais do que precisa de intervenção.
Como conversar com a criança
Pelos e odor corporal fora de hora podem gerar vergonha, sobretudo quando outras crianças percebem. Explicar de forma simples que o corpo está amadurecendo um pouco antes, sem tom de doença, ajuda a criança a lidar com as mudanças. Higiene com sabonete neutro e desodorante infantil resolve o incômodo do odor.
Vale evitar comentários sobre o corpo da criança diante de outras pessoas e manter a rotina normal de escola e esportes. A maior parte das crianças com pubarca precoce segue uma infância e uma puberdade sem intercorrências.
Perguntas frequentes sobre pubarca precoce
Pubarca precoce significa que a puberdade já começou?
Não necessariamente. Os pelos pubianos isolados geralmente vêm das glândulas adrenais, e não do cérebro, que é quem comanda a puberdade verdadeira. A puberdade só está em andamento quando surgem também mamas na menina ou aumento dos testículos no menino.
Cheiro forte nas axilas aos 6 anos é normal?
Pode ser um sinal da adrenarca, o amadurecimento das adrenais, que costuma vir junto com oleosidade da pele e alguns pelos. Em geral é benigno, mas quando aparece antes dos 8 anos na menina ou dos 9 no menino vale uma avaliação para confirmar a causa.
Quais exames a criança com pelos pubianos precisa fazer?
Os mais usados são a radiografia de mão e punho para idade óssea e dosagens de DHEA-S, androstenediona, testosterona e 17-hidroxiprogesterona, colhidas preferencialmente pela manhã. Em casos duvidosos, o teste de estímulo com ACTH ajuda a diagnosticar a hiperplasia adrenal congênita não clássica.
A pubarca precoce precisa de tratamento?
Na maioria das vezes, não. A adrenarca precoce isolada é acompanhada com consultas periódicas e hábitos saudáveis. Tratamento com medicamento é considerado quando há hiperplasia adrenal congênita com avanço importante da idade óssea ou progressão rápida dos sinais.
Pelos pubianos cedo podem prejudicar a altura final?
Na adrenarca isolada, o impacto na altura final costuma ser pequeno ou inexistente. O risco aumenta quando há excesso importante de androgênios, como na hiperplasia adrenal ou nos tumores, porque a idade óssea avança rápido. Por isso o acompanhamento do crescimento é essencial.
Endocrinologista pediátrica em Brasília (CRM-DF 19193), com residência em Pediatria no HMIB e em Endocrinologia Pediátrica no Hospital de Base do Distrito Federal. Título de especialista pela SBP e pela SBEM.
Conheça a Dra. Bárbara »Áreas relacionadas: Hiperplasia adrenal congênita, Puberdade precoce ou atrasada
Publicado em 01 de julho de 2026. Conteúdo informativo escrito e revisado pela Dra. Bárbara Amorim (CRM-DF 19193); não substitui a consulta médica.