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Colesterol alto em crianças: quando investigar e como tratar

Colesterol · · 8 min de leitura · Por Dra. Bárbara Amorim

Criança fazendo coleta de sangue para investigar colesterol alto em crianças

O colesterol alto em crianças é identificado quando o colesterol total fica em 170 mg/dL ou mais e o LDL em 110 mg/dL ou mais, com valores de 200 e 130 mg/dL considerados elevados. O exame deve ser feito em todas as crianças entre 9 e 11 anos e a partir dos 2 anos quando há casos de colesterol muito alto ou doença cardiovascular precoce na família. O tratamento começa por alimentação e atividade física, e remédios ficam reservados a casos selecionados, em geral após os 8 a 10 anos.

Colesterol costuma ser associado a adultos de meia-idade, mas o processo que leva ao infarto e ao derrame começa muito antes. Estudos com autópsias de jovens mostraram que depósitos de gordura nas artérias já podem estar presentes na infância e na adolescência, principalmente quando há alterações nos lipídios do sangue.

Como a alteração não dá sintomas, a única forma de descobri-la é o exame de sangue. Por isso as sociedades de pediatria e cardiologia recomendam o rastreamento em idades definidas, e não apenas quando a criança está acima do peso.

Por que o colesterol alto em crianças importa

O colesterol é essencial para o organismo: participa da formação das células, da produção de hormônios e da vitamina D. O problema está no excesso de LDL-colesterol, a fração que se deposita nas paredes das artérias, e na falta do HDL, que ajuda a retirar esse excesso.

Quanto mais tempo a artéria fica exposta a níveis elevados, maior o dano acumulado. Por isso o colesterol alto em crianças não é um problema para depois: a exposição que começa aos 5 anos e segue sem controle pode antecipar a doença cardiovascular para a idade adulta jovem.

Valores de referência do perfil lipídico

As diretrizes brasileiras de cardiologia e pediatria adotam valores de referência para crianças e adolescentes de 2 a 19 anos. Os números abaixo são uma orientação geral; a interpretação individual considera a idade, o contexto clínico e a repetição do exame.

Exame Desejável Limítrofe Elevado
Colesterol total Menor que 170 mg/dL 170 a 199 mg/dL 200 mg/dL ou mais
LDL-colesterol Menor que 110 mg/dL 110 a 129 mg/dL 130 mg/dL ou mais
Colesterol não HDL Menor que 120 mg/dL 120 a 144 mg/dL 145 mg/dL ou mais
Triglicerídeos (0 a 9 anos, em jejum) Menor que 75 mg/dL 75 a 99 mg/dL 100 mg/dL ou mais
Triglicerídeos (10 a 19 anos, em jejum) Menor que 90 mg/dL 90 a 129 mg/dL 130 mg/dL ou mais

Para o HDL, o desejável é acima de 45 mg/dL, e valores abaixo de 40 mg/dL são considerados baixos. Sem jejum, os limites de triglicerídeos aceitos são um pouco maiores. Um resultado alterado deve ser repetido antes de qualquer decisão de tratamento.

Como interpretar um resultado alterado

Um valor limítrofe isolado não define diagnóstico. Infecções recentes, mudanças de alimentação nos dias anteriores e variações do próprio laboratório interferem no resultado. Por isso a recomendação é repetir o perfil lipídico em algumas semanas e considerar a média das dosagens.

O colesterol não HDL, calculado pela subtração do HDL do colesterol total, ganhou espaço porque dispensa o jejum e reúne todas as frações que se depositam nas artérias. Ele é especialmente útil em crianças com excesso de peso, nas quais os triglicerídeos variam bastante entre uma coleta e outra.

Quando os valores ficam muito acima da faixa elevada, como LDL próximo de 190 mg/dL ou triglicerídeos acima de 500 mg/dL, a avaliação deve ser mais rápida, porque aumentam a suspeita de causa genética e, no caso dos triglicerídeos, o risco de pancreatite.

Quando fazer o exame

O rastreamento segue duas estratégias complementares.

Rastreamento universal

Todas as crianças devem fazer o perfil lipídico pelo menos uma vez entre 9 e 11 anos, mesmo sem nenhum fator de risco. Essa faixa foi escolhida porque os valores ficam mais estáveis antes das mudanças hormonais da puberdade, que baixam temporariamente o colesterol. Um novo exame costuma ser recomendado entre 17 e 21 anos.

Rastreamento seletivo a partir dos 2 anos

O exame é antecipado, a partir dos 2 anos, quando existe:

  • pai, mãe ou avós com infarto, derrame ou necessidade de cateterismo antes dos 55 anos nos homens ou dos 65 anos nas mulheres;
  • pai ou mãe com colesterol total igual ou acima de 240 mg/dL ou com diagnóstico de hipercolesterolemia familiar;
  • história familiar desconhecida;
  • obesidade, diabetes, hipertensão, doença renal crônica ou uso de medicamentos que alteram os lipídios;
  • xantomas, que são depósitos amarelados de gordura na pele ou nos tendões.

Antes dos 2 anos, o exame raramente é indicado, porque a gordura da dieta é essencial para o desenvolvimento do cérebro nessa fase.

Principais causas

Hipercolesterolemia familiar

A hipercolesterolemia familiar é uma doença genética em que o fígado tem dificuldade para retirar o LDL do sangue. A criança nasce com colesterol elevado, independentemente do peso ou da alimentação. É uma das doenças genéticas mais frequentes, embora muito subdiagnosticada.

A suspeita é forte quando o LDL-colesterol está igual ou acima de 190 mg/dL, ou igual ou acima de 160 mg/dL com história familiar de colesterol alto ou doença cardiovascular precoce. O diagnóstico de uma criança frequentemente leva à descoberta da doença em pais, tios e avós, no chamado rastreamento em cascata.

Alterações ligadas ao estilo de vida e ao excesso de peso

A forma mais comum de dislipidemia na infância hoje está associada à obesidade e à resistência à insulina. O padrão típico é de triglicerídeos altos e HDL baixo, com LDL normal ou pouco elevado. A gordura abdominal pesa mais que o peso total, e a calculadora de relação cintura/estatura ajuda a estimar esse risco.

Causas secundárias

Algumas doenças elevam os lipídios e precisam ser descartadas antes de iniciar tratamento específico: hipotireoidismo, síndrome nefrótica, doenças do fígado com colestase, diabetes descompensado e uso de medicamentos como corticoides, isotretinoína e alguns anticonvulsivantes.

Como é o tratamento

O objetivo principal é reduzir o LDL-colesterol, em geral para abaixo de 130 mg/dL, e idealmente para abaixo de 110 mg/dL. Nas crianças com hipercolesterolemia familiar, a meta costuma ser uma redução de pelo menos metade do valor inicial ou LDL abaixo de 130 mg/dL.

Alimentação

A mudança alimentar é a base do tratamento e vale para toda a família:

  • reduzir gorduras saturadas, presentes em carnes gordas, embutidos, frituras, manteiga e produtos ultraprocessados;
  • evitar gorduras trans, comuns em biscoitos recheados, salgadinhos e produtos industrializados;
  • aumentar frutas, verduras, legumes, leguminosas e cereais integrais, ricos em fibras;
  • preferir peixes, azeite e oleaginosas como fontes de gordura;
  • cortar refrigerantes, sucos adoçados e doces, que elevam os triglicerídeos.

Atividade física e rotina

Pelo menos 60 minutos por dia de atividade física, redução do tempo de tela e sono adequado ajudam a baixar os triglicerídeos, aumentar o HDL e controlar o peso. O texto sobre obesidade infantil traz estratégias práticas para a família.

Medicamentos

Quando o LDL continua muito alto após 6 a 12 meses de mudanças no estilo de vida, o médico pode indicar estatina, geralmente a partir dos 8 a 10 anos.

As indicações mais comuns são LDL persistentemente igual ou acima de 190 mg/dL, ou acima de 160 mg/dL com história familiar ou outros fatores de risco. Em crianças com diabetes ou doença renal, o limite para tratar pode ser menor.

As estatinas são usadas há anos em pediatria, com bom perfil de segurança quando acompanhadas por exames periódicos. Em triglicerídeos muito elevados, outras opções podem ser consideradas.

Acompanhamento de longo prazo

O perfil lipídico é repetido em intervalos definidos pelo médico, geralmente a cada 3 a 6 meses no início do tratamento e depois uma ou duas vezes por ano. O crescimento, a puberdade e a adesão às mudanças de hábito também são avaliados.

As mudanças funcionam melhor quando envolvem a casa inteira. Criança que recebe uma dieta diferente da dos irmãos tende a se sentir punida e abandona o tratamento. Quando a família toda ajusta as compras, as porções e a rotina de atividade, os resultados costumam ser mais duradouros.

Na adolescência, o seguimento ganha desafios próprios: mais autonomia para escolher o que comer, contato com álcool e tabaco e, às vezes, abandono do remédio. Explicar ao adolescente o motivo do tratamento e envolvê-lo nas decisões favorece a continuidade até a transição para o cuidado adulto.

Em Brasília, o acompanhamento costuma integrar pediatra, endocrinologista pediátrico e nutricionista. A área de dislipidemia infantil concentra a avaliação desses casos, com atenção especial à investigação da família quando há suspeita de causa genética.

Perguntas frequentes sobre colesterol alto em crianças

Com que idade a criança deve fazer exame de colesterol alto?

Todas as crianças devem fazer o perfil lipídico ao menos uma vez entre 9 e 11 anos. Quando há pais com colesterol muito elevado, hipercolesterolemia familiar ou infarto e derrame precoces na família, o exame é indicado a partir dos 2 anos. Crianças com obesidade, diabetes ou hipertensão também devem ser avaliadas mais cedo.

Criança magra pode ter colesterol alto?

Sim. A hipercolesterolemia familiar, de origem genética, eleva o LDL desde o nascimento, independentemente do peso ou da alimentação. Por isso o rastreamento não se limita a crianças com excesso de peso e leva em conta a história da família.

Precisa de jejum para o exame de colesterol da criança?

Em geral, não. As diretrizes brasileiras aceitam o perfil lipídico sem jejum para a triagem, o que facilita a coleta em crianças. O jejum pode ser solicitado quando os triglicerídeos vêm muito altos ou quando o médico precisa de uma medida mais precisa.

Meu filho vai precisar tomar remédio para colesterol?

A maioria das crianças não precisa. O tratamento começa por mudanças na alimentação e na atividade física, reavaliadas após alguns meses. Medicamentos, geralmente estatinas, são considerados a partir dos 8 a 10 anos quando o LDL continua muito elevado, sobretudo na hipercolesterolemia familiar.

Colesterol alto na infância aumenta o risco de infarto no futuro?

Sim, quando se mantém por muitos anos. O depósito de gordura nas artérias começa ainda na infância, e níveis elevados desde cedo antecipam a doença cardiovascular. Diagnosticar e tratar na infância reduz esse risco acumulado ao longo da vida.

Dra. Bárbara Amorim, endocrinologista pediátrica
Dra. Bárbara Amorim

Endocrinologista pediátrica em Brasília (CRM-DF 19193 · RQE 13646 · RQE 13978), com residência em Pediatria no HMIB e em Endocrinologia Pediátrica no Hospital de Base do Distrito Federal. Título de especialista pela SBP e pela SBEM.

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Áreas relacionadas: Dislipidemia (colesterol alto), Obesidade e Síndrome Metabólica

Publicado em 22 de julho de 2026. Conteúdo informativo escrito e revisado pela Dra. Bárbara Amorim (CRM-DF 19193 · RQE 13646 · RQE 13978); não substitui a consulta médica.

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