A vitamina D em crianças deve ser suplementada de forma preventiva no primeiro ano de vida, conforme orientação geral da Sociedade Brasileira de Pediatria, porque o leite e a exposição solar do bebê raramente garantem o necessário. Depois dessa fase, a criança saudável, bem alimentada e que brinca ao ar livre não precisa dosar a vitamina rotineiramente. O exame fica para quem tem fatores de risco, como obesidade, doenças que prejudicam a absorção intestinal, uso de certos medicamentos ou sinais de doença óssea.
A vitamina D ganhou fama de “vitamina da moda” nos últimos anos, e muitas famílias chegam ao consultório com dúvidas sobre gotas, doses e exames. Parte dessa atenção é justa: a vitamina tem papel central na saúde dos ossos durante o crescimento. Outra parte é exagero, com dosagens pedidas sem indicação e suplementos usados por conta própria.
Este texto explica o que se sabe hoje sobre a vitamina D em crianças, quando a suplementação é rotina, quando o exame de sangue faz sentido e por que mais nem sempre é melhor.
Para que serve a vitamina D no organismo infantil
A vitamina D funciona mais como um hormônio do que como uma vitamina comum. Ela é produzida na pele pela ação dos raios ultravioleta B, passa pelo fígado e depois pelos rins, onde se transforma na forma ativa. Essa forma ativa aumenta a absorção de cálcio e fósforo no intestino.
Sem cálcio e fósforo em quantidade suficiente, o osso em crescimento não se mineraliza bem. Na criança, a deficiência importante e prolongada leva ao raquitismo: ossos amolecidos, pernas arqueadas, alargamento de punhos e tornozelos, atraso para andar e, em casos graves, convulsões por cálcio baixo.
Fontes de vitamina D
- Sol: é a principal fonte. A produção depende do horário, da estação, da latitude, da cor da pele e da área de pele exposta.
- Alimentos: poucos alimentos têm quantidade relevante. Peixes gordurosos, gema de ovo e alguns produtos fortificados contribuem, mas dificilmente cobrem a necessidade sozinhos.
- Suplementos: gotas ou comprimidos, usados na prevenção ou no tratamento da deficiência.
Brasília tem sol abundante durante boa parte do ano, mas isso não garante níveis adequados. Rotina em sala de aula, apartamentos, deslocamentos de carro e o uso correto de protetor solar reduzem bastante a síntese cutânea em muitas crianças do Distrito Federal.
O primeiro ano de vida: suplementação preventiva
A suplementação de vitamina D no lactente, como é chamado o bebê no primeiro ano, é uma das orientações mais consistentes da pediatria. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda, de forma geral, a suplementação preventiva durante o primeiro ano de vida, e a dose habitual de prevenção nessa fase é de 400 UI por dia.
O motivo é simples. O leite materno, apesar de ser o alimento ideal, contém pouca vitamina D. E a exposição solar direta de bebês pequenos não é recomendada por causa do risco de queimadura e da pele ainda imatura.
Quem mais costuma receber suplemento
Em algumas situações, o pediatra pode manter ou ajustar a suplementação depois do primeiro ano:
- prematuros e bebês que nasceram com baixo peso
- crianças com pouca exposição ao ar livre
- crianças com pele mais escura, que produzem menos vitamina D com a mesma exposição
- uso contínuo de medicamentos que aceleram a degradação da vitamina, como alguns anticonvulsivantes
- doenças que prejudicam a absorção de gordura, como doença celíaca e fibrose cística
A dose e o tempo de uso são definidos pelo médico que acompanha a criança. Fórmulas infantis já contêm vitamina D, o que também entra na conta.
Vitamina D em crianças: quando dosar no sangue
O exame de vitamina D mede a 25-hidroxivitamina D, que é a forma circulante e reflete as reservas do organismo. Um ponto importante: a dosagem de rotina em crianças saudáveis não é recomendada. Pedir o exame para todos gera tratamentos desnecessários e ansiedade nas famílias.
A dosagem faz sentido quando existe um motivo clínico. Os principais grupos em que o exame é considerado:
| Situação | Por que dosar |
|---|---|
| Obesidade | A vitamina fica retida no tecido adiposo e circula menos |
| Doenças intestinais (celíaca, doença inflamatória intestinal) | Absorção reduzida |
| Doença renal ou hepática crônica | Ativação prejudicada |
| Uso de corticoides, anticonvulsivantes ou antifúngicos | Alteração do metabolismo da vitamina |
| Fraturas com trauma leve ou baixa densidade óssea | Investigação da saúde óssea |
| Sinais de raquitismo ou cálcio baixo | Diagnóstico e acompanhamento |
| Pouquíssima exposição solar (acamados, restrições) | Risco elevado de deficiência |
Como interpretar o resultado
O posicionamento brasileiro das sociedades de endocrinologia e de patologia clínica considera adequados valores acima de 20 ng/mL para a população saudável. Para grupos de risco, busca-se em geral uma faixa entre 30 e 60 ng/mL. Valores abaixo de 10 ng/mL indicam deficiência mais importante.
O número isolado não conta a história toda. O médico avalia também cálcio, fósforo, fosfatase alcalina e, quando necessário, o paratormônio (PTH). Uma criança com vitamina D um pouco abaixo do ideal e todo o restante normal é muito diferente de uma criança com fosfatase alcalina alta e deformidades ósseas.
Quando a deficiência precisa de tratamento
Confirmada a deficiência, o tratamento é feito com doses maiores por um período determinado, seguido de dose de manutenção. Existem esquemas diários e semanais, e a escolha depende da idade, da gravidade e da adesão da família.
Nos casos com repercussão óssea, como raquitismo ou fraturas repetidas, a avaliação costuma envolver a endocrinologia pediátrica. Nesses quadros é preciso diferenciar a falta de vitamina D de outras doenças que imitam o raquitismo, como as formas hereditárias ligadas à perda de fósforo pelos rins, que não respondem à vitamina comum. Mais detalhes estão na página de distúrbios do metabolismo ósseo.
Obesidade e vitamina D
Crianças com excesso de peso tendem a ter níveis mais baixos, porque a vitamina se distribui no tecido adiposo. Isso não significa que a suplementação resolva o peso. O cuidado com alimentação, sono e atividade física segue sendo a base, como descrito no texto sobre obesidade infantil.
O risco do excesso: intoxicação por vitamina D
A ideia de que “vitamina não faz mal” é perigosa. A vitamina D é lipossolúvel, se acumula no organismo e, em excesso, eleva o cálcio no sangue. Os sinais de intoxicação incluem:
- náuseas, vômitos e perda de apetite
- prisão de ventre
- sede excessiva e aumento do volume de urina
- irritabilidade ou sonolência
- cálcio depositado nos rins, com risco de lesão renal
A maior parte dos casos em crianças acontece por doses altas usadas sem acompanhamento, erro na leitura da prescrição (gotas versus mililitros) ou manipulação com concentração errada. Doses de ataque só devem ser usadas com prescrição e controle de exames.
Cuidados práticos para as famílias
Algumas orientações ajudam a usar a vitamina D com segurança:
- Confirmar com o pediatra a dose exata e a forma de medir (número de gotas ou volume).
- Guardar o frasco fora do alcance das crianças.
- Não somar suplementos diferentes, como polivitamínicos e gotas isoladas, sem conferir a dose total.
- Não iniciar doses altas por conta própria depois de ver um resultado de exame.
- Levar os frascos e as receitas às consultas, para que o médico confira o que está sendo usado.
O brincar ao ar livre em horários adequados, com proteção solar proporcional ao tempo de exposição, continua sendo importante para a saúde óssea e para o desenvolvimento como um todo. Atividade física com impacto, como correr e pular, estimula a formação de massa óssea.
Sinais que merecem avaliação especializada
A vitamina D em crianças costuma ser um assunto resolvido na consulta de puericultura. Alguns sinais, porém, indicam que vale investigar a saúde óssea com mais cuidado:
- pernas arqueadas que pioram depois dos 2 anos ou que são assimétricas
- atraso para andar associado a dor nos ossos
- fraturas com traumas pequenos
- baixa estatura com desaceleração do crescimento, que pode ser acompanhada na curva de crescimento
- cálcio ou fósforo alterados em exames
Nessas situações, a avaliação conjunta entre pediatra e endocrinologista pediátrico permite diferenciar a deficiência nutricional de doenças metabólicas ósseas, que exigem tratamento específico. Para quem vai a essa avaliação pela primeira vez, o guia da primeira consulta com o endocrinologista pediátrico ajuda a organizar os documentos.
Perguntas frequentes sobre vitamina D em crianças
Meu bebê mama no peito, precisa tomar vitamina D?
Sim, de forma geral. O leite materno é o melhor alimento para o bebê, mas contém pouca vitamina D, e a exposição solar segura nos primeiros meses é limitada. Por isso a suplementação preventiva costuma ser indicada desde as primeiras semanas, na dose orientada pelo pediatra.
Toda criança precisa fazer exame de vitamina D?
Não. A dosagem de rotina em crianças saudáveis não é recomendada. O exame é útil quando há fatores de risco, como obesidade, doenças intestinais, renais ou hepáticas, uso de anticonvulsivantes ou corticoides, fraturas frequentes ou sinais de raquitismo.
Qual o valor normal de vitamina D em crianças?
Para crianças saudáveis, valores acima de 20 ng/mL são considerados adequados pelo posicionamento brasileiro das sociedades de endocrinologia e patologia clínica. Em grupos de risco, busca-se em geral uma faixa entre 30 e 60 ng/mL. A interpretação deve ser feita pelo médico, junto com cálcio, fósforo e outros exames.
Vitamina D em excesso pode fazer mal para a criança?
Pode. O excesso, quase sempre causado por doses altas sem acompanhamento ou erros de manipulação, eleva o cálcio no sangue e pode causar vômitos, prisão de ventre, sede excessiva e lesão renal. Doses de ataque só devem ser usadas com prescrição e controle laboratorial.
Tomar sol substitui o suplemento de vitamina D?
Nem sempre. O sol é a principal fonte de vitamina D, mas a produção varia com o horário, a cor da pele, o uso de protetor e o tempo ao ar livre. Em bebês, a exposição direta prolongada não é recomendada, por isso o suplemento continua indicado no primeiro ano.
Endocrinologista pediátrica em Brasília (CRM-DF 19193), com residência em Pediatria no HMIB e em Endocrinologia Pediátrica no Hospital de Base do Distrito Federal. Título de especialista pela SBP e pela SBEM.
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Publicado em 29 de julho de 2026. Conteúdo informativo escrito e revisado pela Dra. Bárbara Amorim (CRM-DF 19193); não substitui a consulta médica.